Um discurso e três veículos de comunicação

No dia 24 de março, o presidente da república Jair Bolsonaro realizou um pronunciamento controverso acerca das medidas contra o Covid-19

Mayara Rosa

O site O Antagonista, pouco depois do discurso presidencial realizado no dia 24 de março, publicou o texto Cúpula do Congresso reage com perplexidade a pronunciamento de Bolsonaro” . A publicação não traz informações originais do veículo, e sim uma reescrita de matéria da jornalista Andréia Sadi para o G1. O Antagonista dá o devido o crédito para Sadi, como prevê o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros. É dever do jornalismo respeitar o direito autoral e intelectual em todas as suas formas.  Apesar dessa atitude correta, a mera reprodução de um conteúdo de terceiros suscita reflexões sobre a falta de uma apuração própria por parte de O Antagonista.

“Pronunciamento de Bolsonaro sobre o coronavírus provoca repúdio geral” foi o título da matéria  publicada no dia 24/03 e atualizada no dia seguinte pelo jornalista André Cintra no site O Vermelho, veículo que se identifica como de esquerda. O texto traz as repercussões das falas de Bolsonaro por vários políticos, geralmente ligados à esquerda, além de representantes de entidades públicas. Ao contrário de O Antagonista, a matéria centra-se em apurações próprias com depoimentos, como de Luciana Santos (PCdoB), vice-governadora de Pernambuco, e Manuela D’Ávila (PCdoB-RS), candidata à vice-presidência em 2018. A matéria também utiliza publicações feitas por outros políticos em redes sociais e  trechos de notícias de outros veículos para aprofundar sua narrativa.

A matéria ainda traz informações que contradizem as falas do presidente no pronunciamento: “Sem apresentar evidências, o presidente afirmou que 90% da população não terá qualquer manifestação da doença, caso se contamine. Só omitiu que, mesmo se apenas 10% da população brasileira for atingida, esse contingente equivale a mais de 2,1 milhões de pessoas. O SUS (Sistema Único de Saúde), sem condições de enfrentar essa demanda, ainda que dispersa por quatro ou cinco meses, teria superlotação e crise.”

O Vermelho tem posições políticas claras que, no texto, manifestam-se em trechos como “fala irresponsável do presidente”, “mais escandalosos e irresponsáveis discursos” e “blefou com a população”. Sob a perspectiva do Código de Ética, o veículo peca por essas manifestações de opinião e por não trazer outros pontos de vista, como de apoiadores do discurso do presidente. Ressalte-se também o título da reportagem afirmando que o pronunciamento provocou repúdio geral, mas, na linha fina, informa que cidades do Brasil voltaram a ter “panelaços” encorajados e em apoio ao Presidente o que contradiz o título.

Em Santa Catarina, o portal NSC Total publicou no dia 25/3 às repercussões do pronunciamento no cenário estadual Com o título ‘Inaceitável” e “equivocada”: entidades catarinenses criticam falas de Bolsonaro sobre o coronavírus”, a matéria se aproxima da abordagem de o O Vermelho, entretanto se abstém das opiniões do veículo ou do repórter Lucas Paraizo. A matéria trouxe a avaliação de representantes de entidades e de autoridades, como secretários estaduais da Saúde, Conselho de Secretarias Municipais de Saúde de Santa Catarina (Cosems/SC) e a Federação Catarinense dos Municípios (Fecam). Todos emitiram notas públicas afirmando que o discurso de Bolsonaro contrariava as medidas propostas pela Organização Mundial da Saúde e classificando o pronunciamento como um desserviço à população brasileira.

A reportagem também levantou o ponto de vista de comerciantes de algumas regiões do estado que concordam com as medidas tomadas pelo governador Carlos Moisés, contrárias às declarações do presidente do Brasil. Entretanto, esses lojistas pediram a retomada parcial das atividades econômicas. Nota-se, portanto, que o texto da NSC tenta equilibrar diferentes pontos de vista, ainda que prevaleçam reações negativas às declarações de Bolsonaro. Também há o cuidado de evitar generalizações, ao contrário do que se verificou no portal O Vermelho.

A internet amplificou a difusão de informações, entretanto quem se propõe a fazer jornalismo precisa estar atento aos preceitos éticos e ao equilíbrio necessário para cumprir a função social de bem informar. Isso requer capacidade de apuração e checagem, bem como o cuidado para não causar no leitor a confusão entre informação e opinião. 

Publicado por alentejornalismo

Projeto experiemental para o curso de Jornalismo na Faculdade Ielusc. Joinville (SC)

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