O Vermelho: jornalismo ideológico

Análise de matéria do site, reflexões sobre o jornalismo de opinião

Mayara Rosa

O ex-Juiz Federal Sérgio Moro anunciou, no dia 24 de abril, sua saída do cargo de Ministro da Justiça e Segurança Pública. Ele alegou que o presidente Jair Bolsonaro tentou interferir em investigações da Polícia Federal e negou ter aceitado a exoneração de Maurício Valeixo do comando da PF. 

“Após denúncias de Moro, apoio a impeachment de Bolsonaro sobe para 54%”, anunciou o título de matéria sem assinatura publicada pelo site O Vermelho no dia 27 de abril, na sessão de Política. O site peca por não revelar a autoria da matéria o que contraria o Código de Ética, afinal “o jornalista é responsável por toda a informação que divulga”. A falta do nome do responsável pela apuração arranha a credibilidade do veículo.

A matéria destaca pesquisa do Atlas Político sobre o aumento do apoio popular a um impeachment de Bolsonaro, depois da saída de Sergio Moro. O texto relata que o apoio ao presidente vem caindo desde o começo da pandemia de Covid-19, em fevereiro. Também contextualiza sobre o crescimento da aprovação de Moro e do ex-Ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta após as saídas conturbadas do governo. A pesquisa ouviu 2 mil pessoas de 24 a 26 de abril, com margem de erro de dois pontos percentuais. 

O texto destaca que 68% dos entrevistados discordam da demissão de Valeixo por Bolsonaro, ao passo que 72% concordam com as críticas feitas por Moro. Em seguida, traz a opinião do criador do Atlas Político, o cientista político Andrei Roman, que levanta a possibilidade de impeachment de Bolsonaro. A matéria reforça essa questão expondo que já existem 19 pedidos ao Congresso, oito neste ano. O restante da matéria destrincha os dados por gênero e religião, termina constatando que Bolsonaro tem rejeição maior que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Há opinião no jornalismo?

O Vermelho, como o próprio slogan do site informa: “A esquerda bem informada”, tem um alinhamento político bem definido, o que leva a  uma discussão antiga da comunicação, o jornalismo militante, panfletário ou ideológico. 

Para entender essa questão, é preciso voltar ao começo da imprensa no Brasil. Entre o período da Colônia e Império, produziam-se panfletos “jornalísticos”, primeiramente ressaltando a família real com apoio financeiro da realeza  (Gazeta do Rio de Janeiro), depois um veículo de oposição e considerado o primeiro jornal do Brasil, o Correio Braziliense. 

Desde então, muitos jornais surgiram, sustentados por interesses políticos misturados a seus modelos de negócios. O próprio Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros prevê que os veículos jornalísticos têm posicionamentos ideológicos e estes devem ser manifestados com responsabilidade. Um dos preceitos básicos do jornalismo é a imparcialidade, buscando ser o mais isento possível de opinião e sempre procurar fontes de todos os lados de uma história. 

O Vermelho, por se pautar em pensamentos e visões alinhadas à esquerda,  geralmente deixa de ouvir fontes discordantes. A matéria já citada aborda o declínio da popularidade de Bolsonaro sem apresentar qualquer contraponto ou fonte de análise diferente da narrativa que cria, ou seja,  exibindo somente uma versão.

Manuel Carlos Chaparro defende que se abandone a dicotomia Informação x Opinião, pois ambas estão presentes em todos os gêneros jornalísticos de modo intrincado. Dessa perspectiva, o jornalismo não se divide em opinião e informação, mas se constrói de opiniões e informações. A observação de Chaparro, entretanto, parece estar mais relacionada à constatação de que a intencionalidade é, como lembra a pesquisadora Ingedore de Villaça Koch, inerente à linguagem e que, portanto, em alguma medida, os posicionamentos ideológicos perpassam todo e qualquer discurso, inclusive o noticioso. Essa constatação, porém, não exime o jornalismo de bem informar, de ser polifônico dando vez e voz a várias versões envolvidas no fato.

Com frequência, os veículos panfletários atribuem seu posicionamento unilateral a uma contraposição à imprensa hegemônica. Ora, se todos os veículos adotassem tal pretexto, caberia ao leitor esquadrinhar o mesmo fato em diversos jornais/sites diferentes, a fim de tentar obter as várias versões necessárias a formação de sua própria opinião. Há que se refletir se o excesso de opinião travestida de informação não acaba prejudicando a credibilidade do público no jornalismo, mas isso é assunto para outro momento.

Publicado por alentejornalismo

Projeto experiemental para o curso de Jornalismo na Faculdade Ielusc. Joinville (SC)

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