A saga dos respiradores de Santa Catarina

Quando sobram declarações e falta investigação, o prejuízo é do leitor

Mayara Rosa

Em 28 de abril, o The Intercept Brasil denunciou com exclusividade a compra, pelo Governo de Santa Catarina, de 200 respiradores com fraude na licitação, acima do preço de mercado e sem data de chegada. A investigação foi realizada pelos repórteres Hyury Potter e Fábio Bispo, ambos com experiência no jornalismo catarinense.

O caso repercutiu nacionalmente e levou à criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito, uma investigação sobre crimes contra administração pública, chamada Operação Oxigênio, prisão do ex-secretário da Casa Civil, e o bloqueio judicial das contas da empresa Veigamed, contratada para fornecer os respiradores por R$ 33 milhões.

O maior grupo de comunicação do estado de Santa Catarina, NSC, deixou o “furo” passar não só uma vez. A NSC repercutiu a investigação realizada pelo The Intercept, entretanto, três dias depois, o portal NSC Total publicou a matéria “Intelbras adquire 100 respiradores para o governo de SC”, escrita pela especialista em economia Estela Benetti. O texto informa que a empresa catarinense Intelbras adquiriu, na China, 100 respiradores e por eles pagou antecipadamente. O governo de SC só pagaria R$ 7 milhões à empresa depois que os respiradores estivessem no estado. A matéria ressalta, sempre de modo positivo, falas do presidente da Intelbras, Altair Silvestri, sem nenhum contraponto.

“-Temos uma grande estrutura na China e conhecimento do setor de eletrônica em função da nossa empresa. Quando recebemos essa demanda, procuramos atender porque estamos sensibilizados com esse momento difícil pelo qual o setor de saúde passa em todo o mundo – informou Altair Silvestri.”

Ou seja, poucos dias depois da denúncia sobre a enorme compra de respiradores fantasmas, a NSC não se preocupou em se aprofundar na apuração dos fatos acerca dessa nova aquisição, contentando-se com o jornalismo declaratório, ou seja, com os depoimentos da fonte empresarial.

Em 21 de maio, uma matéria que compara as duas compras foi publicada pelo repórter Jean Laurindo, no DC, jornal pertencente ao grupo NSC. Essa reportagem traz o avanço da investigação dos aparelhos da Veigamed,  levanta as diferenças de preços e modelos em comparação aos adquiridos pela Intelbras. Também informa que a empresa catarinense não tem permissão de importação do modelo de respirador (VG 70), mas, assim como a matéria de Benetti, contenta-se em reproduzir as declarações da empresa, que alega ter adquirido os modelos antes da empresa Exxomed ter registrado na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) o direito de importação para o Brasil.

No dia 09 de junho, mais uma vez, é o The Intercept Brasil que expõe outro furo de reportagem com relação aos respiradores. O veículo revela que o governo de SC começou um processo de desistência da compra pela Intelbras, após e-mail enviado pelo próprio The Intercept questionando a falta de autorização da empresa catarinense para trazer os respiradores ao Brasil, a ausência nos contratos de data para a chegada dos produtos e a falta de garantia dos equipamentos.  A reportagem apresenta e-mails, pareceres técnicos e partes do contrato para confirmar sua narrativa. Algumas horas depois da publicação, o DC repercutiu a notícia e as informações por meio de uma matéria feita por Jean Laurindo.

O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros tem como base “o direito fundamental do cidadão à informação, que abrange seu o direito de informar, de ser informado e de ter acesso à informação”. Portanto, é um dever do jornalista primar pela informação completa. Conforme o artigo 4º do Código, “o compromisso fundamental do jornalista é com a verdade no relato dos fatos, razão pela qual ele deve pautar seu trabalho pela precisa apuração e pela sua correta divulgação”. Precisão, uma das qualidades fundamentais do jornalismo, requer ir além da mera repetição de declarações. 

A falta de aprofundamento de investigação por parte da NSC no caso dos respiradores, por certo suscita uma série de dúvidas acerca de suas causas: falta de recursos humanos, em decorrência do enxugamento das suas redações? Interesse político ou econômico em manter uma narrativa afinada com esses poderes? Comodismo? São questionamentos por ora sem respostas e que colocam em xeque a credibilidade do veículo cujo maior compromisso deve ser bem informar o seu público.

Publicado por alentejornalismo

Projeto experiemental para o curso de Jornalismo na Faculdade Ielusc. Joinville (SC)

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